Carlos Brandão
Governador do Maranhão
Há sentimentos que a gente não consegue explicar, apenas sentir. Com o Bumba Meu Boi é assim. Quem nasce no Maranhão conhece essa sensação. Basta o som das matracas começar, uma toada surgir ao longe ou o brilho dos bordados aparecer para que algo desperte em nós. É como reencontrar uma parte da nossa própria história.
Por isso, escrever sobre o Bumba Meu Boi nunca é apenas sobre cultura: é descrever quem somos. Em um país tão diverso quanto o Brasil, poucas manifestações populares conseguem reunir tantos elementos ao mesmo tempo: música, dança, teatro, fé, tradição, festa e identidade caminham juntos no Bumba Meu Boi. Sua história guarda marcas dos povos indígenas, africanos e europeus que ajudaram a formar o Maranhão ao longo dos séculos. Talvez seja justamente essa capacidade de reunir diferenças que explique sua força.
No auto, desfilam personagens que fazem parte do imaginário de gerações: Pai Francisco, Catirina, o Amo, os caboclos, os índios, os cazumbás, os vaqueiros e tantos outros rostos conhecidos do nosso povo. Mas a força dessa tradição vai além dos personagens. Cada maranhense encontra nela um pedaço de si, uma lembrança da infância, da família ou da comunidade onde cresceu.
O Bumba Meu Boi não pertence apenas a uma cidade, a um grupo ou a uma região. Ele faz parte da vida do Maranhão inteiro.
Essa riqueza aparece também nos seus diferentes sotaques: na batida vibrante da Matraca, na ancestralidade da Zabumba, na delicadeza da Baixada, na identidade própria do Costa de Mão e na sonoridade da Orquestra. Cada um carrega uma trajetória particular, seus instrumentos, seus rituais e sua forma de emocionar. São expressões distintas, mas unidas por um mesmo sentimento: o orgulho de ser maranhense.
Quando apresentei, ainda como deputado federal, o projeto que instituiu o dia 30 de junho como Dia Nacional do Bumba Meu Boi, sancionado em 2009 – uma decisão que nasceu da escuta do povo -, acreditava que essa manifestação merecia ser reconhecida em todo o país. O tempo mostrou que esse reconhecimento poderia ir ainda mais longe.
Em 2019, o Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranhão recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Foi uma conquista celebrada por todos nós e que confirmou algo que o povo maranhense sempre soube: o Bumba Meu Boi ocupa um lugar especial entre as grandes expressões culturais brasileiras.
Num mundo que muda em velocidade cada vez maior, preservar a cultura é também preservar a memória, os vínculos e a identidade de um povo. O Bumba Meu Boi continua exercendo esse papel de maneira singular. Aproxima gerações, fortalece comunidades, movimenta a economia, impulsiona o turismo e projeta o nome do Maranhão para além de nossas fronteiras.
Neste 30 de junho, celebramos mais do que uma tradição. Celebramos o sentimento de pertencimento que une os maranhenses.
Porque, enquanto houver uma matraca tocando, uma toada sendo cantada e um coração maranhense batendo forte de orgulho, o nosso Bumba Meu Boi continuará vivo. E, com ele, continuará viva a própria alma do Maranhão.





